sexta-feira, 3 de abril de 2020

Todas as ciências contribuem para a humanidade?



Lendo um estudo interessante de uma amiga sobre a vulnerabilidade de áreas florestais em pastagens que facilmente pegam fogo, perguntei-me para quem se está publicando tantos estudos interessantes. Percebam que os únicos conhecimentos que ganham um fim útil para a humanidade são aqueles com aplicações nas áreas de saúde, tecnologia ou em áreas produtiva e que são apropriados pelas indústrias que visam lucro com aquele conhecimento. Aqueles de áreas que não tem um uso comercial ficam apenas para os acadêmicos discutirem e de forma limitada ganham o público e passam a ser vistos como não tendo utilidade para a sociedade. Muito provável seja essa a causa da visão equivocada e limitada do governo Bolsonaro decidir investir o dinheiro de pesquisa em áreas com esses mesmos fins e cortar fundos para as demais.
Isso quer dizer que todas as demais áreas do conhecimento humano (ciências da natureza, humanas e artes etc.) não contribuem em nada para a humanidade? Em verdade, não, e é bem possível que contribuiriam muito mais. O conhecimento produzido nessas áreas contém possibilidades de causar mudanças sociais enormes no que tange a qualidade de vida humana em um nível ainda mais básico e sútil do que as amenidades propiciadas pelas ciências da saúde e de engenharias, por exemplo. A sociologia e a psicologia, p.ex., possuem há muito respostas para ajudar melhorar as relações humanas tanto no nível das organizações sociais e políticas como no nível do indivíduo (i.e., saber lidar com suas emoções) para criar um Estado de bem-estar comum a todos (e isso não tem nada a ver com comunismo!). Se a filosofia fosse algo disseminado na sociedade (e não aquelas banais aulas do colégio que fazem dormir), certamente teríamos indivíduos capazes de pensar por si e que não cairiam tão fácil em “contos da Carochinha” em tempos de campanha política. A ecologia deveria ser a ciência essencial na escola (junto com a psicologia, eu defendo ambas) para cada um entender a casa onde vive e passar a compreender que toda espécie viva contribui para o equilíbrio do funcionamento planetário para prover os recursos básicos para a nossa existência e que quaisquer alterações nos componentes do planeta irão criar uma reorganização no seu funcionamento que poderá ser prejudicial para a vida humana. A ecologia ainda tem em suas bases conceitos úteis inclusive para se aumentar a produtivade de alimentos a custos baixos (e talvez por isso não seja interessante!), ainda mais se aliada à sociologia do uso e da posse da terra (agora mais ainda sem interesse!).
E a pergunta é: por que que essas áreas do conhecimento são tão subvalorizadas e até desprezadas por governos e pelas próprias pessoas? Ao meu ver, o problema começa na escola, mas a escola é um produto de políticas governamentais, onde governantes são oriundos da sociedade que passou por aquela mesma escola. Ou seja, há um círculo vicioso difícil de quebrar e que fica mais sólido quando governos populistas – que falam e pensam o mesmo que o povo em geral – chegam ao poder e mantém ou acentuam aquelas chagas que limitam uma nova escola. A escola foi e ainda é um lugar de decrepitude para a maioria dos que passam por lá e os únicos que se dão “bem” são aqueles que por alguma natureza obscura se encaixam no formato do ensino e que, por outra natureza ainda mais obscura, conseguem ir inclusive além do que é ensinado e questionar aquilo. Os demais acabam por se cansar de ver tanta coisa escrita e sem sentido (como disse o próprio presidente Bolsonaro ao se referir aos livros com muito texto!). Esses, passam a odiar (posso usar essa palavra) o livro e logo em seguida serão aqueles que irão ir contra a ciência, contra qualquer conhecimento escrito e acreditar nas palavras de qualquer profeta fajuto que falar sobre os males sociais e trazer a panaceia para conjurar tais mazelas com o seu próprio conhecimento “de causa”.
E a arte? Onde fica a dita “cultura”, termo inapropriado, mas popularmente aceito para designar toda manifestação artística do indivíduo e de uma sociedade? Assistindo um documentário sobre o “Clube de Bagé”, que retrata a trajetória de um grupo de gaúchos sem instrução nenhuma começaram a desenhar e pintar e conseguiram um lugar entre os maiores artistas plásticos do país, reconhecidos mundialmente, vi que suas obras são exibidas em diferentes setores do Congresso Nacional e do Planalto (ao menos até 2017[!], ano do documentário), inclusive ano gabinete presidencial e de diversos deputados de direita. Curiosamente, muitos dos pintores eram comunistas! Creio que o papel da arte sempre teve esse ar de contrabalançar o poder político, talvez uma das razões de serem tachados sempre como vagabundos ou comunistas, num sentido pejorativo. Enfim, mas nesses lugares os entrevistados diziam que arte servia para expressar a alma daquele lugar e dos que lá estavam, inclusive até para intermediar e amenizar as diferenças políticas entre as partes quando estavam em uma sala. Percebam a profundidade do seu papel social. A arte não é só expressa em quadros, mas também na arquitetura, nos tradicionalismos, ou na composição de um jardim. Eu duvido que alguém, em algum momento, com as devidas condições, não tenha uma obra de arte em casa ou que não se sinta bem em um lugar, uma cidade, arquiteturalmente aconchegante. Ou, no mínimo, consiga dizer que o cinema, que o teatro, que a música, que a literatura ou qualquer outra não tenha um papel fundamental para a vida de um povo ou de si próprio.
O desconhecimento da relevância dessas outras tantas áreas do conhecimento é um produto da mesma forma que uma TV, que advém de diversos conhecimentos de diversas áreas da física e da química, de séculos de conhecimento somados e aperfeiçoados por pessoas que jamais imaginariam tal aplicação para sues experimentos, é vista passivamente como uma banal TV que se compra num mercado ao lado de um Baconzitos. Ao se observar uma TV, quem conseguiria dizer o quanto de conhecimento tem lá e quem foram as pessoas que contribuíram para aquilo ao longo da história humana? O desconhecer e a TV escondem dentro de uma caixa um mecanismo invisível e que por isso passa despercebido para tantos. O desconhecer leva, em algum momento, à ignorância de saber quando não se sabe por tanto se desconhecer. Assim, a pessoa que antes apenas desconhecia passa a ignorar o seu desconhecer e se achar apta a saber pelo que acha saber sobre aquilo que desconhece. Ela se torna ignorante, tanto de si como do mundo que a cerca e, sem saber que desconhece, passa a tomar decisões para si e para os demais a partir do seu poço de ignorância. E, é por essas e outras que todos esses conhecimentos que passam desconhecidos permanecem na ignorância de tantos, um entre os quais que um dia chegará a Presidência da República e que perpetuará a ignorância pôr a desconhecer.
Todo conhecimento é válido se ele for compreendido e aplicado. O que você deveria estar fazendo agora é se perguntando o porquê de tudo o que sabe então não ser aplicado. Essa é uma pergunta retórica, para você investigar e, nisso, eu vou assumir que, se você chegou até aqui nessa leitura, é porque é capaz de responder sozinho a essa pergunta ou pelo menos conjecturar algumas possíveis hipóteses para tal. O que eu sinto, lamentavelmente, é que aqueles que ignoram tudo isso, jamais chegarão até a este ponto final aqui.


sexta-feira, 28 de junho de 2019

A sociedade do futuro começa na tua mente


B.F. Skinner, famoso psicólogo comportamental, escreveu o romance – se assim dá para o chamar – Walden II, Uma Sociedade do Futuro, creio que motivado pelo célebre livro de Thoreau, onde descreve então a criação de uma comunidade alternativa ao modelo de desenvolvimento em voga. A partir da “engenharia do comportamento”, a comunidade se estrutura com novos formatos de ensino, trabalho e modos de vida. Difícil alguém ler e não se motivar com uma sociedade utópica como a qual. A ideia básica é que uma sociedade pode ser melhor conduzida a partir da ciência do comportamento, ou seja, ao se entender a psicologia humana e a partir disso desenvolver todo o modelo de desenvolvimento e envolvimento social para se atingir um estado de bem-estar único e jamais atingível dentro do nosso atual modelo de vida.
Eu poderia escrever muito mais sobre esse livro, mas nesse momento me atenho a uma passagem que, para mim, é central:

“(...) nós estimulamos nossa gente a olhar cada hábito e costume tendo em vista um possível aperfeiçoamento. Uma atitude constantemente experimental com relação a tudo – é isso que precisamos. Soluções para problemas de todo o tipo se seguem quase que milagrosamente”.

Percebem a profundidade dessa ideia? Ela quer dizer que, para acharmos as soluções para os problemas, primeiro temos que analisar todo o nosso comportamento, nisso nossos hábitos, nossa própria cultura (e daí eu sugeriria, se te interessares sobre esse pensamento, que estude a ideia de cultura para entenderes que cultura não é necessariamente algo bom!). Repensar nossas atitudes que se expressam a partir de comportamentos embutidos numa cultura geralmente invisível. Por que temos que nos vestir assim? Por que tenho que parecer sexy? Por que posto tantas fotos no Facebook/Instagram? Por que penso tão pouco acerca do todo, do mundo, do bem-estar das outras pessoas e tanto sobre o que eu quero ou não quero? Por que tenho que ter isso, agir assim, pensar dessa forma etc.? Por que comprar isso? De onde vem esse produto que estou a consumir? 

Sem um olhar crítico sobre tudo o que se faz (e esse fazer está estruturado dentro de um rol limitado de ações culturais), nós continuaremos sempre na mesma situação. Percebam que as mudanças sociais/culturais ocorrem sempre quando alguém pensa em algo diferente. Alguém, outra pessoa, não tu que estás preso, cego dentro de um sistema onde todos os outros estão e isso faz com que seja “normal” agir e pensar igual a todos. Aí, tem sempre alguém fora da caixinha, buscando novas formas de pensar, agir e fazer. São essas pessoas que levam a humanidade para a frente, enquanto que os demais (e tu!) ficam no lastro dessas mentes.

Soa, assim, que é preciso ser alguém muito especial para causar tais mudanças. Errado. Apenas é necessário desenvolver um senso crítico para analisar o que nos acontece, o que ocorre dentro das nossas cabeças. Uns aprendem meditação e isso é uma forte ferramenta. Outros conseguem desenvolver um senso natural de observação da mente, das ações e começa, assim, a surgir naturalmente questões de “Por que isso é assim?”. Um senso crítico assim permite que essas pessoas não comprem ideias que chegam a elas via Whatsapp, Facebook ou mesmo por textos aparentemente bem escritos. Questionariam inclusive esse texto com questões razoáveis e não tendenciosas, marcadas por uma tendência de defender o seu modo de vida, aquilo que acreditam apesar de todas as evidências contrárias.

Nisso, tu entenderás o conceito de “conservador” e “progressista”, embora a diferença, no fim das contas, pode ser sutil. O conservador é aquele que se deu bem dentro de um modo de vida e quer mantê-lo de todas as formas. Nossa política é praticamente toda conservadora, mesmo entre aqueles que se chamam de progressistas (por isso a sutileza na diferença quando se trata de políticos). O Brasil é uma país extremamente conservador nesse sentido e isso se observa, p.ex., quando se vê a disputa entre o agronegócio e o meio ambiente (falo disso por ser minha área de estudo). De tão conservador, o agronegócio, mesmo quando tecnifica suas atividades, ainda assim permanece conservador na ideologia por trás de como percebe o mundo ao redor. Isso cria um conflito desnecessário, dando força à forças retrógradas do desenvolvimento social e político e essa força elege uma pessoa tão atrasada nisso e conservadora ao extremo como Bolsonaro. De tão conservadores (para manter seu modo de vida inviolável a qualquer custo), combatem até a ciência que aponta a real necessidade de se manter ecossistemas saudáveis para o próprio agronegócio progredir (polinizadores, água, chuva, temperatura, controle de pragas etc.). Não vou me prolongar nesse parágrafo, já que não é esse tema o propósito desse texto. No entanto, a chave para os problemas está nesse tipo de comportamento.

Não pensar nossos comportamentos e atitudes leva, como diz Skinner, a não encontrar a solução para os problemas que enfrentamos e nisso ficamos dando voltas e voltas sempre nas mesmas questões. Quem ler Etienne de la Boétie, A Servidão Voluntária, vai perceber que os problemas descritos por ele na França de 1500 são os mesmos que ainda enfrentamos hoje no mundo. Sem mudanças de cabeça, como diz Daniel Quinn em A História de B, ou mesmo Einstein (numa frase atribuída a ele), não sairemos dessa roda. A solução de um problema não pode ser encontrada pela mesma cabeça que o criou, disse supostamente Einstein. Essa mudança de cabeça só é possível com a mudança de comportamentos/atitudes e essa só ocorrerá através do aperfeiçoamento dos nossos hábitos, como supõe Skinner.

Será que a gente consegue? É uma batalha individual, não adianta. No entanto, comportamentos mudam também ao se observar a mudança do outro e isso tem um potencial ainda maior para a mudança individual: estimular a mudança em cadeia. Assim, que tu sejas uma semente de mudança ao começar a parar por um instante todo dia, sentar, respirar profundamente umas três vezes, ouvir o som ao redor, acalmar a mente e então começar a perceber os pensamentos que te surgem e te empurram para certos comportamentos e, tomando consciência deles, perguntar-se: “De onde veio esse pensamento? Por que ele surgiu? Por que eu quero fazer isso, afinal? O que quero atingir agindo assim?”

Perguntas simples, mas difíceis de serem feitas pela necessidade desse momento de calmaria e percepção de nós mesmos ao invés do que queremos que os outros pensem sobre nós. Mudanças, mudanças que queremos, a sociedade que buscamos viver e contribuir para. Mudanças possíveis unicamente com a nossa mudança (lembram daquela frase clássica que é preciso arrumar o nosso quarto antes de tentar mudar o mundo?). Comece hoje, comece agora. Por que não? Se chegastes até aqui na leitura, tens o potencial para tanto ao ter a paciência para ler um texto com mais de 4 linhas e sem um meme! Comece, sente, respire, olhe ao redor e comece a observar a tua mente...apenas a tua.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Esquerda vs. Direita e o ignorante caminho do ser humano


A solução para a crise política do ser humano vai chegar quando ele abandonar os lados que defende. Digo o porquê. A esquerda vive ainda num estado estático de pensamento em que vê duas entidades sólidas, como que constituída por seres diferentes, populações diferentes, quase que genética e morfologicamente: a classe trabalhista e a classe detentora dos meios de produção. Parece que o romantismo invade o cenário social onde se perpetua aquela ideia do bem contra o mal, a luta do império contra os rebeldes. Porém, são seres da mesma espécie, mesma constituição genética e tudo o mais, mas apenas – e é o que os diferencia – pensam diferente. Acreditam em coisas diferentes, valores diferentes. Enquanto que a esquerda olha para teorias sociais do passado, a direita olha ingenuamente para o futuro. O ponto positivo nisso é que a esquerda lê, mas se prende ao que lê. Vejo isso claramente no discurso de pessoas que lutaram contra a ditadura brasileira, apegados às ideias maoístas, stalinistas e trostkyanas e que hoje admitem que estavam equivocados. O socialismo funciona bem na teoria e não na prática, basicamente porque o ser humano ainda não está preparado para um sistema social de cooperação mútua e por isso o capitalismo vai funcionando, capengamente, mas vai. A esquerda tem sua fraqueza incurável no seu próprio ideal que ignora a realidade social, onde haverá um lado perdedor (o do capital) que em nenhum momento cessará de tentar voltar ao poder. Não é de estranhar que a URSS, Cuba e China tenham fuzilado tantos capitalistas para tentar evitar a volta desses, impondo um regime de terror para manter o poder. Somente assim se mantém, pois de outra forma o capital voltará, sempre, porque a força do capital e a sociedade viciada no materialismo o fará voltar. Quando não, a falta de uma moral no próprio ideal do partido eleito o fará se render aos bens do capital ou ceder a ele, exemplo claro com o PT no Brasil, embora de uma forma menos explícita e ainda mantendo o Estado aparelhado (embora frágil, dando forças para a direita voltar – e voltou!).

Por outro lado, a direita com seu liberalismo acredita que a livre concorrência, sem um estado gerenciando a coisa, permite um melhor desenvolvimento econômico da sociedade. Ela acredita na ideia ingênua de que com o desenvolvimento econômico virá também um desenvolvimento social. Um ponto central aqui é a necessidade de se separar dois grupos dos defensores do liberalismo: o assalariado e o detentor do capital. Quem acredita que o liberalismo trará benefício social é assalariado defensor da ideia, mas não creio que essa seja uma crença dos detentores do capital, pois eles não estão nem aí para a questão do desenvolvimento social – quanto menos desenvolvido o social, melhor para se aproveitar dele como mão de obra e como consumidor. Uma prova disso é que as estatísticas relacionadas ao PIB e o bem-estar social há décadas desmentem isso, mas o neoliberal assalariado quer continuar a acreditar, porque do contrário seria admitir que a esquerda está certa. Nietzsche já tinha alertado que “por vezes as pessoas não querem ouvir a verdade porque não desejam que as suas ilusões sejam destruídas”. Isso vale para a esquerda também.


O calcanhar de Aquiles da direita é a premissa de que a moral do homem irá nortear a interação do econômico com o social através de leis. O problema é que, como estamos cheios de exemplos, não há moral no meio político-econômico. A moral é uma natureza ainda a ser desenvolvida no ser humano e esperar que ela surja como num passe de mágica é ingênuo ou até insano da parte do liberal. O problema é que no liberalismo econômico, o ser humano é apenas um número que gera capital e esse capital tende a se acumular na mão de poucos, principalmente em países em desenvolvimento onde a população em geral é ainda analfabeta em política e em economia, fácil de ser manipulada (é o caso do Brasil). É só olhar para ver isso acontecendo hoje (ou o liberal acredita num outro tempo ainda a vir? Aí ele seria ainda mais ingênuo do que já é).



No liberalismo econômico, tudo se torna fonte de capital, até os itens básicos como a água, saúde, saneamento etc. Tudo vira moeda e só terá acesso aos recursos quem tiver a moeda. Há nisso a falsa ideia da meritocracia, que diz que toda pessoa que se esforçar terá seu lugar ao sol. Haja lugares ao sol para isso então, numa sociedade de postos de trabalho em declínio. Nisso, aparece outra crença do liberal: a economia pode crescer e abarcar a todos. Para crescer, a economia precisa de recursos e consumo, recursos esse que ela mesmo já está extinguindo no meio ambiente e que tenderá a piorar com as mudanças climáticas que ela mesma também está conduzindo. Estoques pesqueiros sendo eliminados, terras agrícolas sendo exauridas, florestas tropicais em declínio e os oceanos sendo acidificados e esquentando (ambos cruciais para a regulação climática) e por aí afora. Escreveria um livro sobre isso, mas já existem muitos e é só preciso ler. Eis aqui um problema dos liberais: eles não leem sobre os problemas sociais e ambientais. Eles ignoram que a Economia é apenas uma subdisciplina da Ecologia. Eles vivem numa bolha da crença de que o dinheiro pode resolver qualquer coisa, o que na verdade só tente a piorar (quer exemplo mais clássico do que os EUA?). O liberal é extremamente materialista e enquanto pode comprar, tudo está bem. Quando o poder de compra cai, ele veste a camisa canarinho e vai para a Paulista protestar contra a esquerda, culpada da crise econômica (mas que sempre existiu e muito maior nos países liberais também – alguém vai negar isso?).



Ambos os lados, direita e esquerda, vivem numa bolha de ingenuidades e alimentam essas com suas crenças e falta de raciocínio crítico. Na verdade, e aqui é ponto central desse texto, é justamente essa falta de raciocínio lógico que limita o ser humano de atingir seu potencial máximo. O ser humano nasce desprovido da sabedoria, mas com o potencial de a obter. Contudo, basicamente por motivos sociais, ele não a desenvolve. Ele se contenta com o que aprende do meio, mas não processa logicamente aquilo que aprende. Ele apenas capta e se adapta a um meio, limitando todo o potencial de ir além daquele ponto como indivíduo e logo como ser social. Fogem à essa regra aqueles que pensaram, que escreveram livros e teorias, mesmo que equivocadamente, mas eles fugiram e pensaram. Contudo, o que vejo é um mar de pessoas apenas copiando e colando postagens desprovidas de pensamento original ou se atendo ao que foi escrito em outros tempos sem questionar o poder da autoridade erudita. Hoje, o modo de pensar da espécie humana, antes invisível, ficou explícito com o Facebook, que como disse antes, se limita ao aprender do meio sem pensar sobre: clico compartilhar, logo pensei.


A solução para o ser humano está em abandonar seus dogmas e ideologias, parar, sentar, respirar, refletir, olhar para os dois lados, entender o outro para então chegar num terceiro lado (e entender a multidimensionalidade da própria existência num universo multidimensional). O ser humano não vive uma crise – pelo simples fato de que crises acontecem de um momento para o outro num estado prévio de bonança. O problema do ser humano é uma de suas muitas naturezas: a sua própria ignorância. A pessoa que acha que está certa para acusar o outro deveria ter a capacidade de onisciência e nenhum ser humano até o momento a desenvolveu. Logo, seria sensato parar e considerar o que o outro está falando, balancear o próprio olhar e, nisso, quem sabe chegarem juntos a uma nova conclusão sobre o problema. Vejam que isso requer cooperação, união sem bandeiras hasteadas, pois a construção de uma sociedade justa requer cooperação e não luta de classes como prega a esquerda socialista/comunista e nem “que vença o mais capaz” como prega a direita neoliberal. O ser humano só será melhor quando não mais existirem bandeiras de futebol, de países, de partidos, pois isso significará o reconhecimento do ego em cada um, ego esse que simboliza a ignorância. Como a escala é enorme (sem bandeira de países?), poder-se-ia começar numa escala menor como a de partidos, isso porque esquerda e direita nunca poderão se sentar à mesma mesa, uma vez que ainda estarão imbuídas de seus ideais e crenças. Somente poderão se sentar à mesma mesa pessoas iguais e com os mesmos interesses. Será somente assim que o ser humano dará um passo em sua existência nesse universo infinito, esquecido de ser contemplado pela pessoa presa às teorias sociais e ao dinheiro. Sem isso, que nos acostumemos e convivamos com nossas próprias atrocidades em seus diferentes níveis um com o outro.



segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Publicidade: uma atividade criminosa?

"A publicidade é uma atividade criminosa".
                                                                   -Eduardo Marinho 

Ao assistir documentários e ver pessoalmente o efeito devastador da publicidade de consumo sobre sociedades, crianças e o ambiente, a ideia expressa acima não parece estar equivocada. Usam-se artifícios psicológicos contra pessoas incapazes de se defender psicologicamente. O problema, talvez, é que muitos publicitários ignoram o efeito sistêmico do que realmente fazem e ainda dizem que "As pessoas compram porque querem comprar", como disse um publicitário no documentário 'Criança: A Alma do Negócio'.

Assista aos documentários:
The Economic of Happiness (A Economia da Felicidade)
Criança: A Alma do Negócio
Uma lição de ética sobre publicidade infantil - Prof. Clóvis de Barros Filho


segunda-feira, 26 de outubro de 2015

As correntes invisíveis da escravatura contemporânea


“A ditadura perfeita terá a aparência da democracia, uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não sonharão sequer com a fuga. Um sistema de escravatura onde, graças ao consumo e ao divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão.” 
---Aldous Huxley em Admirável Mundo Novo.

Depois de ler certos pensadores é difícil não se questionar sobre a forma como que a sociedade se estrutura e funciona, sobre a forma como se dá a busca pela profissão, pelo emprego, onde se eu ganho o outro perde a vaga. Há uma competição (in)visível, onde o tolo intelectual dirá que a natureza se estrutura da mesma forma, através da competição. Esses deveriam rever os novos postulados sobre a teoria darwiniana e ver que é muito mais através da cooperação que tais comunidades existem. Isso naturalmente levaria a um questionamento sobre o funcionamento de uma sociedade que se move apenas com o combustível do dinheiro, mas que poderia se mover sem ele - ver Utopia, de T. Morus. E isso é tido como normal, o funcionamento é aceito e questionado apenas por menos do que a minoria. O indivíduo ordinário mantém o sistema, dá corda nele. Corre para ocupar a vaga daquele que se demitiu por questões éticas e morais e com o dinheiro compra a roupa da Zara. Acha que por que vota, há democracia, quando o próprio sistema eleitoral não o é (se um candidato tem mais tempo de TV do que o outro, já aqui não há um sistema justo). Huxley está certo: somos escravos amando a escravidão, vivendo de angústias sem saber exatamente de onde vêm, embora esteja na nossa cara a causa.

domingo, 13 de setembro de 2015

Nós criamos nosso próprio inferno político


Tentativas de postar algo no Facebook com relação a leituras e comentários de amigos que descrevem o caos, culpam políticos etc. pela atual crise no RS e no Brasil. Quis escrever sobre quem de fato são os culpados, o que sempre me leva aos eleitores, o povo em si. Várias tentativas que me decepcionaram ao perceber que o culpado nem se dá conta de que é o culpado. Escrevi, deletei, reescrevi, decidi não publicar nada e vim aqui escrever no meu diário. Então percebi que talvez valeria a pena postar, mas o farei aqui no blog.

Ora, sabe-se que político não é um ser confiável e então, na hora de colocar alguém para gerir um governo ou representar no parlamento, deve-se ter total cuidado e atenção. Mas quem faz isso? Raros, mesmo dentre alta classe educada, raros. Raros esses que no fim não elegem os candidatos que de fato mereceriam estar lá. Os que elegem, depois se esquecem de monitorar esse governante ou representante parlamentar, de ver o que ele tem feito, como ele tem votado (sim, porque ele está votando pela pessoa que o elegeu, ele a está representando, ora). Esquecem de cobrar, de mandar um e-mail ou até uma carta, independente de se serão lidos ou não – poderão ser e se todos ou boa parte dos eleitores fizessem isso, o tal político iria saber que está sendo monitorado e que não terá tais votos na próxima eleição. Ele poderá roubar agora, mas será a sua última vez.

Mas quem faz isso? Quando Manoela D’Ávila votou a favor na primeira votação das mudanças do código florestal, mandei um e-mail para ela. O e-mail foi respondido, não por ela, mas isso sempre chega a ela, claro. Imagine se mais de um e-mail tivesse sido enviado? “- Putz, estou sendo monitorado pelos meus eleitores...fudeu!”.

Se há de fato um culpado nisso tudo, esse é o povo. Sou eu, tu, ele, nós, vós, eles...todos os sujeitos que votam e os que com ideais não se candidatam (que como eu, pensam que não se elegeriam e ,mesmo assim, a cada dia fico mais motivado a entrar para a política para tentar ser uma opção, tentar lutar por ideais – mas poderei não receber votos necessários porque não terei dinheiro para me promover, ou porque, como acontece, vota-se em determinado candidato por razões quaisquer que não o bem maior do povo).

Os políticos são só agentes do povo. Mas o povo esqueceu em quem votou, não sabe como agir, não foi educado para isso e assim o ciclo se fecha e recomeça a mesma coisa. O povo é inocente e culpado ao mesmo tempo. Não é por nada que poucos são os novos políticos que entram todo ano e os que já estão, em sua maioria, lá permanecem. Como que um Eduardo Cunha é reeleito? Um Renan Calheiros? Ora...no fundo, deveríamos ser roubados, ter os salários atrasados, morrer numa maca no hospital e tudo de mais ruim que possa acontecer, embora os coerentes sofrem junto com os incoerentes. Essa é a tal democracia, não?. Somos nós que botamos eles lá para causarem isso para nós, não? E lógico, eles vão fazer. Por que não fariam? Por quê?

Nós criamos nossos próprios infernos, sejam eles mentais, sejam eles políticos. Em qualquer nível de governo, eles não são postos lá por deuses ou são algo desconectado de nós, como parece evidente quando os chamamos por "os políticos de Brasília, aqueles fdp". Eles não foram postos lá por alienígenas. Mas parece!

 E aí? O que fazer? Reclamar, xingar e qualquer outra atitude de expressão que não tirar os caras de lá ou, melhor, não os colocar lá, não terá efeito nenhum. Desculpem-me, mas político corrupto não tem crise de consciência para mudar de lado e se tornar mocinho com críticas e belos textos. Ou tu achas que tem?

No fim, terão os que curtirão isso, terão os que não e no fim, tudo dá na mesma coisa. Fecha-se o Facebook ou se vai para o próximo post e...pronto. Esquece-se.

domingo, 24 de maio de 2015

A carne tem vida: um olhar no íntimo humano

Depois de optar pelo vegetarianismo há quase cinco anos, é estranha a percepção de ver alguém (um veterinário, um zootecnista, um produtor rural) se referindo a um bezerro que corre alegremente pelo campo como "a carne produzida tem sabor mais palatável". A expressão revela um olhar que não vê vida, mas carne. Um olhar desconectado do íntimo de um outro ser. Não vê um olhar de um ser que respira, que gosta de carinho, que se torna tão amigo quanto um cachorro quando criado próximo. Um olhar de medo quando está no corredor pro abatedouro. Um ser que sente. Mata-se e se come depois aquela carne da mesma forma que um animal carnívoro come a presa abatida. No fim, o homem revela sua natureza e nisso então ele se mostra tão animal quanto.

Vejas aqui um vídeo de vacas sendo liberadas para o pasto depois de meses confinadas devido inverno severo do hemisfério norte, ou essas cabras brincando de escorrega. Percebem a humanidade nos animais em ambos os vídeos?

Um abraço.